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Respingos do Campo Semântico

  • Foto do escritor: editoracontratempo
    editoracontratempo
  • há 6 dias
  • 2 min de leitura
campo semantico augusto quenard

Vim mostrar minhas notas de leitura sobre a nova obra do Augusto Quenard. 


É um livro de poesia dos mais coesos. Pelo tema, que é constante em todos os versos, e pela organização, que foi bem pensada. A atmosfera é de uma colheita só.


Campo é trampo. Tem que tá na lida todo dia.


A brincadeira vocabular no poema da cobra (p. 27) representa bem o enredamento nos versos, como a bicha na árvore:

 

“fumo de corda em rolo

sobre os talos das taboas

desenrola-se ofídica

e escura a cobra acorda”

 

Poema é um canto de algum canto.


Acho que os poemas dispostos em versos dispersos pela página ficam bons também pra mostrar a semeadura, a variedade de onde nascem as coisas: aqui, ali, aqui de novo e lá, ó, lã.


E é legal que tem uma história oculta, nem tão oculta, graças a esse cenário presente, intenso e firme, e aos personagens que aparecem e desaparecem, em idas e vindas — como era de se esperar, no campo, meio que definitivo.


A morte do Pedro vir logo antes de um poema que menciona o pai, por exemplo, alimenta bem esse enredo.


Meus preferidos, talvez, são a ode à minhoca (p. 53), pela forma e o humor medievais:

 

“canto, pois, pra clamar a outra deidade

cujo Olimpo cavouca

do teu monte em antagonicidade

como divina toca:

minha musa a Minhoca

de tez rosa e esbelto

corpo que se contorce a céu aberto”

 

e o poema do Deco (p. 69), que parte do cenário trágico pra revelar os pouco (entre leitores) cotados benefícios da modernidade:

 

“calam Eco o estampido das pedras

e o estouro dos cavalos de força


Narciso perde seu reflexo

na iridescência do diesel

 

no entanto o Deco

não mais ilhado pelas rochas

arrastadas pela enchente

agora pode atravessar de camionete

para entregar as verduras da semana”

 

Uma draga, uma cobra, uma minhoca. Irrupções ancestrais no cotidiano.


Chama a atenção como o tempo verbal do livro todo é o presente. Um que outro passado, mas visto no instante: a chegada da gata, a chegada do gato, a morte do amigo.


O tempo do mato é presente. É a intensidade, a firmeza. A única possibilidade de haver amanhã é tu fazer alguma coisa hoje. O trabalho, que é sempre o dia a dia, agora, pra sempre.


É, como diz um verso, “aceitar do tempo o prato do dia” (p. 88).


Um presentão. Valeu Augusto e valeu editora Contratempo por mais essa obra que vai criar raízes.


Paulo Damin



Paulo Damin, escritor e professor


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