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Borges e o anarquismo conservador

  • diegolockfarina
  • 31 de jul. de 2024
  • 8 min de leitura

Autorretrato Jorge Luis Borges
Autorretrato feito por Jorge Luis Borges nos anos 1970, já cego

Tem uma entrevista em que Jorge Luis Borges declara seu anarquismo conservador, o que me parece uma lúcida redundância. Já Dario Fo, pela boca de um personagem, tinha falado isto em Morte acidental de um anarquista: “Os anarquistas são muito conservadores”.


A declaração do Borges poderia ser colocada ao lado de tantas outras declarações de anarquismo por parte de personagens famosos, caso ele não acrescentasse o adjetivo “conservador” e explicasse o que isso significa:


— Yo querría un mínimo de gobierno, pero lamentablemente todavía los gobiernos, aún los gobiernos malos, son necesarios. Como la policía, que es evidentemente necesaria. Si fuéramos éticamente perfectos no serían necesarios los gobiernos, que son un peligro, sin duda. Pero yo no puedo opinar en materia política, soy un anarquista conservador. Mi padre era anarquista. Una vez fuimos a Montevideo y mi padre me dijo que me fijara en las banderas, en las aduanas, en los uniformes, en las iglesias, en las comisarías, porque todo eso iba a desaparecer. Nosotros, cuando fuimos a Europa, en el año 14, viajamos sin pasaporte. No había pasaporte, usted pasaba de un país a otro como de una habitación a otra. Luego vino la Primera Guerra Mundial, la desconfianza, el espionaje, y ahora todo ha cambiado, no se puede dar un paso sin identificarse, es muy triste eso.


“Mi padre era anarquista”, diz o Borges.


O cara levou um guri de quinze anos pra Montevidéu e mandou observar como em breve todo aquele aparato militar, governamental e religioso ia deixar de fazer sentido. Era a ideia anarquista do século XIX: os inimigos eram o Estado e a Igreja.


A geração do Borges, no entanto, teve um adversário mais forte, que foi o sistema financeiro, por isso ele fala em anarquismo conservador: porque já não bastava ser contra o Estado e a Igreja; era necessário ser contra o liberalismo, o progressismo, o modernismo, todos os ismos sob os quais o capitalismo sabe se disfarçar.


Acrescentar o adjetivo “conservador” ao anarquismo, na declaração do Borges, é dizer que lamentavelmente as ilusões do pai dele não se concretizaram. O “conservador” é consequência do “lamentavelmente”. Por isso, não vou usar aqui o termo “anarconservador”, nem o cacofônico “anarco-conservador”. Usá-los seria como criar um conceito, como se existisse uma ala assim chamada dentro do anarquismo (tipo anarco-individualismo, anarcomunismo etc.)


Por ele — se ele pudesse viver num mundo em que não precisasse se lamentar — por ele viveríamos na Anarquia. Se tivesse nascido uma geração antes, o Borges seria simplesmente anarquista, sem aquela concessão ali à realidade: o conservador.


***


Essa entrevista com o Borges é extraordinária. Foi feita em 1982, mas publicada apenas em 2016, no jornal El País, de Madrid.


O repórter Cláudio Miguel Pérez era um guri de quinze anos: a idade que o Borges tinha quando o pai dele o mandou observar o fim do Estado e da Igreja, em Montevidéu. Pérez era um estudante que foi falar com o veterano escritor pra fazer um trabalho de espanhol, um trabalho pra escola. O jornalista mirim pergunta sobre o futuro, e o ancião diz:


– Yo quiero pensar que habré muerto, pero creo que vamos barranca abajo. Yo ya no tengo esperanza, ustedes son jóvenes, tal vez tengan esperanzas, yo ya no tengo ninguna.


Baita entrevista.


***


Baita entrevista também porque foi feita depois do último livro de contos do Borges, O livro de areia, que havia saído em 1975.


Nessa coletânea ele abriu mão dos tradicionais prólogos que escrevia e optou por um epílogo: “Prologar cuentos no leídos aún es tarea casi imposible, ya que exige el análisis de tramas que no conviene anticipar. Prefiero por consiguiente un epílogo”.


E nesse livro ele abre mão de um jeito que, não sei, mas acho que só uma pessoa que passou setenta anos escrevendo abre mão daquele jeito.


É um livro de paródias, como o próprio autor reconhece, quando lamenta ter incluído nessa coletânea uma paródia de Lovecraft, que por sua vez seria “um parodista involuntário de Poe”. Nesse livro está Ulrica: pela primeira vez o Borges apresentava um conto de amor. E tem também Utopía de un hombre que está cansado, que é, como o autor mesmo diz, “la pieza más honesta y melancólica de la serie”.


A palavra justa: a peça. Ao mesmo tempo um troço qualquer, um pedaço; mas também uma habitação e um objeto raro, artístico: a peça de Shakespeare, a peça musical…


***


Esse Utopía de un hombre que está cansado é mesmo o texto mais melancólico e honesto, praticamente a versão ficcional da entrevista concedida ao jornalista mirim, anos depois. A utopia, no conto, é o que ele chamaria mais tarde de anarquismo conservador. É a imagem que o pai dele lhe sugeriu naquela viagem a Montevidéu.


É a história de um cara do século XX, um homem de setenta anos, que de repente vai parar no futuro. Lá ele encontra uma casa, onde é recebido por um homem que só fala latim e explica, em tom aforismático, tudo que mudou desde 1970 até o futuro (séculos depois) em que estão:


“Ya que no hay posesiones, no hay herencias”, diz o homem do futuro, enunciando um dos princípios anarquistas mais importantes. “Cuando el hombre madura a los cien años, está listo a enfrentarse consigo mismo y con su soledad”, completa, agregando um valor espiritual e transcendente à razão materialista da verdade anterior.


O conto inteiro é nesse tom panfletário, o narrador chega a dizer que “dinero no da mayor felicidad ni mayor quietud”. É o ritmo de um discurso utópico, um texto literário que poderia ser usado na formação de militantes em organizações anarquistas, por exemplo; um texto que poderia ser adaptado em alguma peça teatral a ser apresentada em saraus do 1º de maio.


Utopia é um gênero literário antigo, coisa dum tempo em que talvez ainda houvesse chance de uma organização social que não fosse o capitalismo. O conto do Borges não apenas apresenta uma utopia, mas se inscreve na tradição da literatura utópica e didática: a epígrafe do conto define utopia; o livro do Thomas Morus é citado durante a conversa; o conto é praticamente todo em forma de diálogo.


Essa utopia borgiana é uma distopia, como todas as utopias a partir do século XX. O mundo futuro apresentado é sem fronteiras, sem nomes, sem propriedades e sem vaidade, mas não parece mais feliz, porque a felicidade não é um elemento realizável socialmente, e a melancolia é aquilo que vai sobrar pra resolver no dia em que forem solucionados os problemas básicos e materiais.


A partir do século XX, só as distopias conseguem passar uma mensagem utópica; só o fim do mundo pode gerar a chance da recriação de um mundo. De novo, uma perspectiva anarquista, radical: a revolução, em contraposição ao reformismo da maioria das posições políticas.


Sobre os governos, o narrador pergunta o que aconteceu com eles, e a resposta do homem do futuro é que “fueron cayendo gradualmente en desuso”, “nadie en el planeta los acataba”, “los políticos tuvieron que buscar oficios honestos; algunos fueron buenos cómicos o buenos curanderos”.


É simplista, o próprio personagem o reconhece na sequência da fala. Mas pensa no Borges, no autor. Como não escrever um conto simples, direto, como não entregar o que tu realmente pensa, se tu precisa escrever quando tu tá cansado? O escritor precisa escrever, mesmo cansado.


O escritor vai escrever mal, não só pelo cansaço. É por precisar escrever que o escritor, eventualmente, vai escrever mal.


***


O Borges se dizendo anarquista aos 83 anos me deu ternura. Um sentimento tão marcante como o da primeira vez em que o li, quando o que me bateu foi o conservadorismo.

Eu tinha quinze anos. Não sabia o que ler e fui a um sebo procurar alguma coisa boa, mas eu não sabia o que era uma coisa boa, então eu pegava livros contando com a sorte.

Vi um exemplar preto e vermelho, capa dura, barato. Jorge Luis Borges, o autor. Olha só, pensei, aquele músico gaudério escreveu um livro. E levei.


Só me dei conta de que o autor não era o Luiz Carlos Borges quando era tarde demais. Eu já tinha me tornado cúmplice da história universal da infâmia e me perguntava, sem saber a quem recorrer: esse texto é verdade? é mentira?


Mas fiquei ainda mais espantado quando li aquele prólogo em que o Borges contava que tinha se filiado ao partido conservador. Onde já se viu, um escritor de direita! 

Não parei de ler. Pelo contrário, aquilo me deu uma sensação de acesso a uma obra proibida.


Depois, hoje, pensei que o Borges falou em se filiar ao partido conservador (nem sei se isso existiu de fato, com esse nome, na Argentina) pra que parassem de encher o saco dele com os marxismos e peronismos. Imagina, o homem trabalhou durante o século XX inteiro, deve ter saturado muito rápido daquela conversa sobre engajamento. Dizer que se filiou aos conservadores quer dizer: só me importa a literatura.


No mesmo sentido, em algum lugar, ele disse que não se importava com os contemporâneos, ou que sim estava lendo uns contemporâneos seus: o Stevenson, algum poeta finlandês do século XVI…


Aí, na sua utopia, ele aproveita pra criticar o jornalismo, que era outra maneira de dizer que só se importava com a literatura. E que tudo era ficção.


No conto, o personagem do século XX se refere ao jornalismo como “la superstición de que entre cada tarde y cada mañana ocurren hechos que es una vergüenza ignorar”, e que “todo esto se leía para el olvido, porque a las pocas horas lo borrarían otras trivialidades”. 


Tem também um comentário sobre o sustentáculo do jornalismo, que é a publicidade: “la gente era ingenua; creía que una mercadería era buena porque así lo afirmaba y lo repetía su propio fabricante”.


O Borges desperdiçou seu talento escrevendo contos. Podia ter sido um baita teórico anarquista.


***


Os anarquistas são muito conservadores.


Em contraposição, o capitalismo vive se atualizando. Todo dia é assinada uma concessão pra se fazer um prédio que vai durar vinte anos onde antes tinha uma casa de setenta; todo dia um empresário ganha o direito de derrubar araucárias pra estacionar um caminhão. Basta que essas empresas depois limpem seu nome financiando publicidade contra a morte das baleias e das crianças no oceano.


Foi isso que venceu, no século XX: a face modernizadora, o liberalismo. Até pouco tempo atrás, havia uma frase aparentemente paradoxal: liberal na economia, conservador nos costumes. Quer dizer, liberal na hora de fazer dinheiro, conservador na hora de garantir que esse dinheiro continue comigo. Não tem paradoxo nisso. Liberal significa apenas “conservador das liberdades”, que pra essa turma é sinônimo de dinheiro.


E não tem nada de paradoxal no anarquismo conservador. É uma redundância, inclusive, porque o anarquismo é uma ideologia contrária a essa modernização inútil, violenta, criminosa por ser inútil e violenta. O comunismo compactuou com os métodos capitalistas: ditadura, arquiteturas de concreto, trabalho escravo, publicidade perversa. Por isso se odiavam, na guerra fria, URSS e USA: eram duas fases da mesma moda: o progresso.


O Borges se dizer conservador é dizer que não acredita na demolição de uma casa porque ela saiu de moda. É dizer (isso vem do Piglia), que ele acreditava numa totalidade, esperava uma explicação geral, desejava uma verdade.


O conservador, esse adjetivo vem pra aparar as ideias fanfarronas que em geral se colam ao termo anarquista: de que tudo é relativo, de que não adianta organizar nada, de que não há um caminho melhor do que outro, e o caos é a explicação mais verdadeira. O anarquista conservador, em resumo, é o anarquista organizado: o Borges não deve ter estudado de fato a história dessa corrente ideológica; senão, teria usado apenas o termo anarquista e sustentado isso como o fazem até hoje os anarquistas sérios.


***


O Borges era um livre-pensador. Esse é um termo do século XIX, um conceito só aparentemente vago: na verdade, era usado pra indicar anarquistas, gente que não seguia partidos nem religiões. O Borges se perguntou, como todo anarquista, como todo conservador, se as modernizações eram realmente necessárias ou se se tornaram necessárias porque os fabricantes delas repetiram e convenceram a maioria de que elas eram necessárias… Perguntou porque era um livre-pensador, um pensador livre, alguém que pensa porque é livre e é livre porque pensa. 


Usar o pensamento pra derrubar araucárias e construir estacionamento de caminhão é capitalismo, é progresso, é falta de imaginação.


Dá trabalho imaginar uma utopia. O Borges se dizia anarquista porque ele tinha imaginação.


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Paulo Damin, escritor e professor



 
 
 

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