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Notoriamente vadio — uma resenha de Adriano Chupim

  • Foto do escritor: editoracontratempo
    editoracontratempo
  • 1 de out.
  • 9 min de leitura
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De arranque, já antecipo, sem visar rotulações mais drásticas, que o Chupim do título sofre daquela mediocridade inerente ao protagonista em formação, conforme o gênero romanesco assim adjetivado. Não que o livro sobre o Adriano em questão se trate de um — o orelhador desta edição fala em mescla de romance picaresco com o de tese, o que é certo.


Contudo, também me parece que a disposição do (anti)herói retratado pelo Damin tem um tanto daquilo que Thomas Mann observara sobre a pasmaceira propositiva de seu Hans Castorp, no périplo repousado no sanatório suíço; ou ainda do epíteto de “pobre coitado” que Goethe dedicara ao seu Wilhelm.


Se esses dois personagens — canônicos — pontuaram paisagens decisivas no âmbito estético e histórico, respectivamente, o Chupim assinala em si o propósito oportunista da própria geração despropositada a que pertence. Ele faz justiça ao apelido que carrega, dentro de seu microcosmo agigantado pelo orgulho regional, tão caro aos (sul) riograndenses refratários ao brasilismo mais genérico.


Para além de aludir à cor da ave na roupagem (desconhecendo a relação alvirrubra mais certeira entre os laços maragatos e chimangos, optando pela pilcha e lenço negro, por pragmática ignorância), o vagabundo vê no sonho indepedendista dos correligionários uma oportunidade para gastar sua melancolia entediada numa viagem de arregimentação pelo estado.

 

Sim: vê no fundo partidário de uma célula separatista o ensejo apropriado para exercer seu gauchismo quase quarentão, outrora arrefecido pelo cosmopolitismo universitário de companhias diletantes e anarcorrevolucionárias, ainda mui verificáveis em botecos de esquina de Porto Alegre.


Assim como, já retornado à querência colona original, sem lá muito o que fazer, inerte e temulento, vê uma boa desculpa para levantar o cu da cadeira onde diariamente espera crescer os pés de mate de lavra própria — regido pela trilha sonora de trocentas referências de clássicos gauchescos repletos de aforísticos garganteios e lastimosos desamores, como demanda a praxe.


Seu cinismo poltrão, notavelmente carismático, serve de contraste aos candidatos, intelectuais e subversivos peões do Movimento e Partido em que se metera. Estando seu traquejo social basicamente limitado ao transporte e oferecimento de mate, trago e fumo — no mais e essencialmente mirando um enrosco auspicioso com a moçota idealista de nome Fran, partícula fundamental dos insurgentes — as descrições iniciais do Chupim, da perspectiva de um narrador onisciente e bem memoriado, causam aquele incômodo certeiro, afável e constrangedor, como quando se vê — e também quando se vê a si — um sujeito solitário rodando salão em busca duma rodinha pra encaixar suas reflexões sobre o mundo, ou uma orelhinha desprecavida que lhe assunte o suficiente para que ambos terminem a noite esbagaçados num colchão, projetando família — que já tá passando da hora de tomar jeito.


É claro, se lá em cima mencionei o Hans e o Wilhelm, para fins de método e comparação, não o fiz desapercebido da gritante desproporção; entretanto, também eu mesmo tocado por essas alegorias de um estado que também é o meu, e das proximidades que também deveriam ser as minhas, é justo que o entusiasmo do logo após leitura não se mixe de universalizar o livrinho para além da cerca da modéstia, emprestando-lhe uma grandeza que, se não tem e não merece, ao menos precisa fincar o pé impositivo da revolução, imperiosamente — doa a quem doer, inclusive o historiógrafo ponderado contemporâneo, que acende um alerta tão logo um bigodudo pilchado engrossa a voz melodiosa para dizer que ama seu estado e que…


[...]

Chupim, afinal, é um cínico que vagará pelo Rio Grande (do Sul) emulando um voluntarismo político rigoroso que essencialmente não tem, aproveitando-se da empreitada para reanimar seu espírito jornalista que fora desalentado pela correria consumista de um século excessivo de desimportâncias modernosas, e que, na altura dos trinta e poucos, encontra-se acomodado pela herança imobiliária dos pais interioranos — a única responsabilidade que a vida lhe deixara após seus anos de urbanismos e divagações.


Se aqui adoto um tom um tanto vago e atmosférico, deixando as referências da obra apenas nas sugestões gerais acerca do Chupim, seus comparsas e ambientes, é porque a leitura mesma, de tão breve, familiar e bem ritmada (inclusive ostensivamente guiada pelos versos tradicionalistas e nativistas inseridos em toda parte) se justifica e se completa em hora e meia, inclusive aos leitores mais desatentos e relaxados. Ademais, qualquer aprofundamento nas citações de excertos e publicidades positivistas entre aspas demandaria uma seriedade que o Adriano (e seu compositor) certamente não merecem, tendo em vista o descompromisso do colono beberrão que faz do viço revolucionário de terceiros um instrumento para a escansão da sua poesia reprimida, enciclopédica; ora prostrada, ora berrante.


Ao não apontar o aqui, ali, acolá dos causos chupinianos, também me resguardo de me entregar a partir de algumas preferências e identificações, potencialmente condenáveis em tempos de tão globalizada boa vontade.


Por exemplo, jamais deixaria escapar a correção ao narrador do Damin quando fala que num bar chinelão na A.R, em Porto Alegre, havia a filha (no singular) do bodegueiro  — que transbordaria gostosura, nas palavras de quem narra —, quando na verdade seriam as filhas (plural), mais precisamente três (a que rendia a rememorada pelo Chumin, digo, pelo Pauliano; e aquela outra que trabalhava apenas nos finais de semana) igualmente transbordantes; também não incorreria no pecado de apontar as páginas onde a ignorância porto-alegrense acerca de seus eminentes históricos, plaquinhas de extensos logradouros, é evidenciada a partir do causo casual com a neta do Borges de Medeiros (ou Ramiro Barcellos? Borjoca ou Amaro Juvenal?), correndo o perigo de registrar o quão patéticos e provincianos podem ser os citadinos da Capital; se pinçasse o belo parágrafo sobre a irônica boniteza da função socioeconômica do casamento, ou da canseira de se procurar uma grande paixão em vez do prosaico contentamento de arranjar uma simples companhia pro resto dos dias, talvez acusasse qualquer subjetivo sinal de amadurecimento que não vem ao caso; se garantisse as risadas dedicadas às descrições que fundamentam os casamentos determinados a partir dos sobrenomes gringos, e deterministas a partir da região e das posses e dos negócios, talvez troçasse em pensamento um meio mundo com quem travei conhecimento...

 

O biografismo, além de cafona e bagaceiro, só é relevante para leitores de baixa qualidade; a impessoalidade da resenha deve tomar destaque, portanto. Então deixemos de lado qualquer análise mais sensível ao povo caxiense, do qual Chupim descende, para não lembrar que minha mãe, também caxiense, à época dos quase nove meses de gestação, fez questão de passar temporada em Porto Alegre para garantir que eu não nascesse serrano — ainda por cima na capital daqueles lados, cujo povo sempre lhe causara repulsa. 


E uma vez que me escapei de uma urbana soberba polenteira, que provavelmente me faria SER Caxias em grená, aliado ao Chupim, acabei optando pelo colorado do sul, também por imposição materna — resistindo ao aliciamento frustrado dos tricolores da família do pai e também de uma manobra mais drástica de um vizinho da nonna, que treinava os guri da base do Juventude, e em uma das minhas visitas à capital da Serra me presenteara com fardamento verde completo: meia, calção, camisa e abrigo incluído, os quais esqueci muito convenientemente num roupeiro velho semelhante a uma lixeira; o desprezo comezinho do Adriano com seu rival de regionais disputas ordinárias do tipo me valeu a reminiscência, ainda lembrando o carinho da companhia do tio que me levava ao Centenário para alentar o Caxias durante jogos inúteis num frio de julho de renguear, em contendas de baixíssima qualidade técnica, nas quais sobressaía o faro de gol de Washington (antes do coração valente), a elegância de Paulo Turra e a maestria de Gil Baiano, sob as batutas de Celsos Roths e Tites, muito antes de se bandearem para o Brasil para acabar com o futebol arte e somar frustações em copas do mundo, respectivamente.

 

Se aproximasse demais da resenha bagunçada, cedendo a causos particulares da juventude, diria não ter em nada me surpreendido quando li, durante a descrição do campo de girimpa entre italianos e alemães — onde o protagonista duela musicalmente com o vizinho, outro tinhoso — que o irmão mais velho do Adriano era tratado por negro pelo sogro (o que na boca do alemão soava como um baita palavrão), pai da cunhada daquele, justamente pela descendência italiana. Lembraria um episódio juvenil, quando certa vez fui instado a confraternizar natal na casa de uma sogra num confim da hinterlândia gaúcha, e tive de acordar com o berro do cunhado primogênito — bem mais velho e espirituosamente dramático — assustado por ter encontrado um ínfimo pelo duro perdido no banheiro. Sendo cria da cidade, branquelo de só ver a noite, foi como aprendi que há gradações na classificação étnica a depender de onde se está pisando, e no caso daquele convescote familiar loiro (onde, a depender da altura do trago, eu poderia muito bem confundir a caçula com as outras irmãs, e os irmãos também...) o negro era eu.


E nem a família dos primo velho da mãe, nas periferias rurais de Caxias, nos desvios das estradas serranas, me dava folga, nas primeiras vezes sempre apelando a chacota para o incongruente fato de termos o mesmo sobrenome, apesar da minha mão macia e lombo desprovido de queimaduras do sol. Demorei a conquistar confiança, apenas alcançada após prosaicos chistes genéticos e grosserias pontuais — para enfim me confessarem, a filha de um deles, a bem dizer, assemelhada às filhas do bodegueiro que o Damin mencionaria no Chupim, que nosso sobrenome estava atrelado a uma linhagem de ladrões.


Fosse esmiuçar reminiscências e particularidades particulares — desinteressantes, no mais —, a coisa iria longe, fazendo parecer que todo o despropósito identitário das viagens de Adriano Chupim realmente pode suscitar a fagulha de um patriotismo gauchesco e uma telúrica nostalgia de rincões perdidos para o entusiasmo predial, sintoma do risível gregarismo individualista característico da vida comercial numa capital de século XXI. Talvez um risco aos leitores, que, por meio segundo, em silêncio, poderiam também ignorar aquele saudável sentimento verde e amarelo de união universalizante, quando em verdade optaram por propagandear uma crítica genérica ao próprio solo, que creem desconhecer enquanto roncam a bomba enterrada na cuia — e algum chá docinho com que temperam o amargo, bem guardado na ecobag que ostentam pra cima e pra baixo.


A hipótese de que o cinismo do protagonista Chupim reflete alguma verdade indevida e mal escamoteada pelo contemporâneo talvez não seja das maiores invencionices. O bairrismo da realidade respira: seja na troça, na autocrítica ou no desejo de qualquer revolução, por vezes menosprezado num revisionismo bem enquadrado na prateleira das belas convenções, que é das coisas que mais se vê por aí.


Adriano Chupim, o livreto, é tão notoriamente vadio, inclusive na extensão e escansão; lírica e épica apressada. Prosódias e regionalismos, interjeições e léxicos bem amarrados e harmônicos — inclusive quando explicativos, didáticos ao povo da cidade —, que soam naturais na mesma medida em que se percebe que o narrador é tão oportunista quanto o protagonista, cansado de tanto fazer nada enquanto aproveita o imaginário revolucionário para pensar o inútil da vida até então, no prazer do fumo artesanal e onipresente dose de pinga. Como num expirar cansado de fim de dia, quando nenhum objetivo fora alcançado, e ainda assim — ou justamente por isso — se gasta um último alento para arriscar uma breve narração memorialística ou mesmo compor uma milonga — o que se confirma literalmente, neste caso.


Se bem lembro — e não faz tanto tempo assim —, o Augusto Quenard, que é o engenhoso prefaciador da obra, levantou alguma questão mais técnica sobre o regionalismo literário — sendo ele um irmão (a)cá do Prata, argentino, se não me engano — que não fora de todo respondida pelos presentes no evento de lançamento desta edição da Contratempo, realizado na Paralelo 30. Na ocasião, guardei meus fumos teóricos no bolso, para poupar o público de uma exibição enfadonha chancelada pelos meus estudos mais recentemente orientados, que basicamente atendem a algumas necessidades acadêmicas e o preenchimento de lacunas particulares, as quais cultivei por muito tempo com o denodo vagabundo de uma intuição poética que por muito tempo fez questão de não atentar à bela materialidade da nossa prosa e lírica, ainda que sempiternamente saudada na velha edição do Chimango que li quando petiço.


Houve — e isso é sintomático — um perceptível desprezo quanto ao que de fato é, se é que algum dia foi, uma obra regionalista; e, consequentemente, uma generalização que as enfiasse numa descriteriosa tendência sem muitos comos ou porquês, como se se tratasse de qualquer desenvolvimento empolado por algum anacronismo certamente descartável, hoje em dia. Quanto a isso, recomendaria ao curioso amigo argentino a leitura de Do beco ao belo: dez teses sobre o regionalismo na literatura (1995), da Profa. Ligia Chiappini, ensaio que, se não fecha a questão, ao menos a reabre com uma bela seriedade, sem apegos excessivos, mas também sem receio de melindrar o cosmopolitismo dos entusiastas de uma literatura contemporânea necessariamente afeita à estética mais à mão da tradução e apreensão de um público geral, inclusive proveniente de outros estados do mesmo país, temendo que a pequena infraestrutura de uma obra regional atrapalhe o comércio, ao dar de cara logo na primeira cerca que encontre.


Chiappini propõe — e prova — que, para além de uma tendência historicamente demarcável, mais lá atrás, ela ainda pode ser compreendida, mais pra cá, por meio da tensão e estranhamento entre a tradição e a modernidade: seus contrastes não anulam o caráter regional de uma obra, seja no campo ou na cidade — mas acentuam e aprofundam a partir da falta, do traço natural, da frustração migrante.


E que tem a ver o Chupim no meio dessa bagunça?


Pois que ele, galardoado pelo Damin como embaixador de uma causa revolucionária, é uma síntese satisfatória entre o oportunismo preguiçoso de se aferrar às responsabilidades da laboriosa vida contemporânea, ao mesmíssimo tempo em que também é responsável ao se aferrar às oportunidades da vida rural para viver a preguiça em meio à retomada do exercício do espírito revolucionário de outrora. Bem assim: o patético dos ícones todos apontados em Adriano Chupim realça a beleza desses mesmos tipos, e vice-versa.


O notável bom-humor da literatura do Damin é bom: provoca risadas certas, que maliciosamente provocam justamente a superficialidade com que escamoteamos, convenientemente, algumas raízes às quais negamos a superfície.


Ricieri Camatti, escritor e doutorando em Teoria Literária
Ricieri Camatti, escritor e doutorando em Teoria Literária

 
 
 

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